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INTRODUÇÃO
Os desafios da saúde são grandes e crescentes a nível mun-
dial, na medida em que a população aumenta e envelhece per-
manentemente; as necessidades, expectativas e exigências
dos cidadãos não param de crescer; e os medicamentos, tec-
nologias e serviços de saúde tornam-se mais caros. A degra-
dação ambiental, cataclismos, catástrofes, conflitos e acções
de terrorismo podem afectar em pouco tempo um grande
número de pessoas. Aumenta a prevalência dos acidentes, in-
toxicações e diversas formas de violência. Antigas e novas do-
enças propagam-se muito mais rapidamente, exigindo uma
actuação internacional rápida, concertada e eficaz.
Consequentemente a saúde, frequentemente definida como
“um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e
não a simples ausência de doença ou enfermidade” é efecti-
vamente um desiderato e repto de toda a sociedade, diríamos
da humanidade, exigindo a promoção de ambientes e estilos
de vida saudáveis, o controlo dos chamados determinantes
sociais da saúde (como a escolaridade, trabalho e rendimen-
to) e a disponibilidade de serviços de saúde de qualidade e
humanizados.
O “calcanhar de Aquiles” dos programas, projectos e serviços
de saúde é justamente o capital humano, quer dizer a exis-
tência, organização e desempenho dos profissionais, come-
çando pela sua formação. Neste capítulo, o desafio é formar
aceleradamente muitos profissionais, formar com qualidade,
a um custo sustentável, e direccionar sempre a formação para
a realidade (nomeadamente o contexto local), respondendo e
antecipando os problemas de saúde.
EDUCAÇÃO MÉDICA
A situação vigente e as grandes questões que se colocam à
formação dos médicos e outros profissionais de saúde estão
bem identificados no mundo
(1)
, em África
(2,3)
,nos países de
língua portuguesa
(4,5)
e em Angola
(6,7)
onde existem também
estudos sobre a investigação em saúde
(7,8)
e a envolvente do
ensino superior
(9,10)
. A dimensão e complexidade dessas ques-
tões levaram a Organização Mundial de Saúde (WHO)
(11)
a
recomendar, desde meados do século XX, a criação de uni-
dades, departamentos ou centros de educação médica nas
faculdades de medicina e centros médicos académicos. Em
Nova Delhi (1966) foi reconhecida a necessidade de criação
da Federação Mundial de Educação Médica (WFME)
(12)
o que
veio a acontecer formalmente em 1972 por iniciativa da WHO
e da Associação Médica Mundial (WMA)
(13)
.
A educação é reconhecidamente central para a sobrevivência
e bem-estar das sociedades e o próprio conceito de “desenvol-
vimento humano” agrega ao crescimento económico a esco-
larização, a saúde e outros padrões de qualidade de vida
(14)
.
Quando falamos de educação médica estamos a referir-nos ao
processo de aprendizagem e desenvolvimento de competên-
cias que gera bons médicos. Em vários países e instituições,
essa expressão é extensiva ao vasto leque dos profissionais de
saúde (incluindo enfermeiros, farmacêuticos e outros) pois a
sua formação tem muitos aspectos comuns e esses profissio-
nais actuam de forma complementar, trabalhando em equipa,
a bem dos doentes e comunidades. A educação médica come-
ça no primeiro dia em que o estudante inicia a sua formação
básica numa escola médica ou curso de saúde e prolonga-
se durante toda a sua vida profissional, incluindo portanto,
para além da “educação médica básica”, a pós-graduação
profissional ou especialização, a pós-graduação académica –
quando existir – e a educação contínua. Esta última torna-se
cada vez mais importante na medida em que as doenças (e
o conhecimento que delas temos), os meios de diagnóstico,
os medicamentos e outros recursos terapêuticos evoluem
permanentemente. A aprendizagem resulta de cursos ou ses-
sões formalmente organizadas nas faculdades e hospitais (ou
outras unidades sanitárias), mas também do convívio entre
colegas, da auto-aprendizagem e (de que maneira...) do exer-
cício quotidiano da profissão, podendo dizer-se que o grande
educador do médico é o próprio doente.
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