forto claro e as razões desse desconforto podem ser iden-
tificadas e medidas, portanto, são percebidas pela maioria
dos trabalhadores, principalmente quando existem mecanis-
mos colectivos de protecção ou há recurso ao uso de equi-
pamentos de protecção individual, independentemente da
efectividade desses recursos. Mas isso não fica claro e nem
é perceptível para muitos trabalhadores, se são obrigados a
trabalhar em ritmo acelerado, sem tempo para fazer pausas,
seja montando peças numa unidade industrial, ou seja ven-
dendo determinados produtos ou serviços, nem sempre fica
claro que as pessoas deveriam trabalhar de outra forma. As
metas estipuladas unilateralmente pelas empresas, a impos-
sibilidade de opinar ou de influenciar na sua determinação,
a pressão e a impossibilidade de buscar formas alternativas
de trabalhar, levam a situações nas quais a única saída clara
para os trabalhadores seja aquela de fazerem de tudo para
conseguirem atingi-las. São ingredientes de um caldo doen-
tio, do ponto de vista físico e psíquico. Mas tudo isso pode
ser visto como “natural” pelos próprios trabalhadores ou se
percebem que podem acidentar-se ou adoecer, enfrentam
ainda dificuldades em mudar. A relação entre trabalhadores
e a administração das empresas é de profunda desigualdade
no Brasil. Nem sequer a liberdade de organização por local
de trabalho existe. Cria-se um contexto de impotência, que
faz adoecer psiquicamente. Os que conseguem atingir as
metas estipuladas, fazem-no sob forte pressão, ultrapassan-
do os seus limites. Aqueles que não conseguem são frequen-
temente discriminados, submetidos a humilhações, discri-
minações e demissões.
Na sua opinião, como considera que deve ser efectuada a
gestão dos riscos psicossociais?
Não acredito que seja possível dosear a pressão ou o medo
de demissão e discriminação. A gestão de riscos psicosso-
ciais é uma falácia que visa ocultar uma forte tendência actu-
al de desumanização das condições de trabalho, que ignora
os limites humanos, que busca aumentar a produtividade
pressionando, manipulando e aniquilando a subjectividade
dos trabalhadores. Não é possível administrar, por meio de
procedimentos e regras, os aspectos psicossociais. Alguns
pressupostos devem ser assumidos por quem quer realmen-
te enfrentar os aspectos doentios do mundo do trabalho. É
preciso procurar de modo contínuo, na organização do tra-
balho, os determinantes explicativos da doença dos traba-
lhadores e não nos indivíduos. Estudos apontam que vários
aspectos comprometedores são: cargas de trabalho excessi-
vas, exigências contraditórias e falta de clareza na definição
de funções, falta de participação na tomada de decisões e a
pouca flexibilidade na forma de executar o trabalho, a gestão
fundada na pressão e no medo, a falta de transparência, o
distanciamento entre o discurso da empresa e a prática quo-
tidiana, a comunicação dúbia, a falta de solidariedade entre
colegas, a fragmentação do tecido social do colectivo de tra-
balhadores. Tudo isso não é administrado, se não houver real
intenção de discutir esses aspectos e mudar.
" (...) é preciso procurar
de modo contínuo,
na organização
do trabalho, os
determinantes
explicativos da doença
dos trabalhadores e não
nos indivíduos."
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