magazine RISCO ZERO n4 - page 21

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e nos efeitos imediatos (exemplo: acidentes). A cultura orga-
nizacional da SHST deve assegurar um ambiente de trabalho
seguro e saudável aos trabalhadores. O mesmo será dizer que
deve assumir que saúde não é apenas a isenção de acidentes
ou ausência de doenças, mas deve ser perspectivada como o
direito a longo prazo a um estado de completo de bem-estar
físico, mental e social (OMS) e não apenas limitado ao espaço
de trabalho e à vida profissional activa. Não é uma tarefa sim-
ples, pois o conjunto de factores que intervém no desempenho
e na segurança e saúde são muitos. Referimo-nos aos factores
individuais (capacidades, competências, atributos físicos, psi-
cológicos, sociais, culturais e biográficos), contextuais (nível
organizacional e social) e aos factores relativos às tarefas (acti-
vidades e ambiente).
Todos estes factores associam-se afectando o comportamen-
to dos indivíduos e a qualidade das interacções estabelecidas,
pelo que, a identificação e análise dos factores que afectam o
adequado funcionamento do sistema e a segurança e saúde do
trabalhador contribuem para optimizar as condições da activi-
dade laboral e, em consequência, aumentar a produtividade e
a diminuição ou eliminação das fontes de erro, de acidentes ou
de mau desempenho.
São inúmeros os exemplos que se podem apresentar, a análise
dos efeitos da sobrecarga informativa na atenção e a relação
com os factores organizacionais como o horário de trabalho ou
a definição de pausas. Se estas não forem adequadas facilmen-
te levarão a erros ou acidentes. Também, um ambiente social
saudável, em que as pessoas colaboram, tem efeitos positivos
nos processos de decisão.
Ainda a título de exemplo, podemos falar da interacção tra-
balho-família e do impacto que tem nas oportunidades de
descanso ou do stress provocado pela gestão da interacção do
trabalho–família. Neste exemplo, as características organiza-
cionais, do posto de trabalho e biográficas podem concorrer
para a exaustão e o burnout. Estes exemplos permitem ilustrar
que o desempenho e a ausência de erros ou acidentes devem
ser vistos de uma forma mais abrangente e a longo prazo. O
trabalhador não deixa de ser pessoa e ter vida activa quando
sai do trabalho, nem a vida extra-laboral e os seus efeitos dei-
xam de existir quando entra no trabalho.
Esta afirmação devia ser uma verdade de La Palice, tão eviden-
te que seria ridícula, mas infelizmente a prática das empresas
continua a perspectivar a segurança e saúde em função da
produtividade imediata.
É fundamental que empresas e governos desenvolvam mais
esforços concertados na abordagem da SHST numa perspecti-
va global e na convicção que a saúde e segurança são direitos
humanos básicos que podem ser diminuídos por condições
adversas no meio ambiente, em casa e no local de trabalho.
Garantir uma vida laboral segura e saudável é contribuir para
a qualidade de vida das pessoas para além dos anos de activi-
dade profissional e, em consequência, para a saúde social e a
sustentabilidade económica dos serviços de saúde e da segu-
rança social.
Gabriela Gonçalves
× PhD em Ciências Psicológicas;
× Licenciada em Psicologia Social e das Organizações;
× Actualmente é Professora Auxiliar na Universidade do Algarve
onde exerce a função de Directora do Mestrado em Gestão de Re-
cursos Humanos, Directora do Mestrado em Psicologia Social e das
Organizações e Directora Adjunta do Mestrado em Segurança e Saú-
de no Trabalho;
× Lecciona e desenvolve investigação no âmbito das interacções so-
ciais e do comportamento organizacional;
× É membro do Research Centre for Spatial and Organizational Dy-
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