magazine RISCO ZERO n6 - page 66

5 PERGUNTAS A
DR. FRANCISCO BUTA
1.
O actual quadro económico é entendido como um
dos factores que tem contribuído para o crescimen-
to das doenças mentais relacionadas com o trabalho.
Na sua opinião, como se justifica esta relação de cau-
salidade?
No plano global, a evolução tecnológica dos meios e do pro-
cesso de produção – da manufactura à automação, ocorreram
alterações significativas na organização do trabalho, com o
objetivo de aumentar a produtividade e maximizar o lucro.
Em pouco mais de um século ocorreram 3 revoluções indus-
triais e há quem nos coloque já na 4ª revolução industrial. A
estes desenvolvimentos corresponderam diferentes paradig-
mas da administração e da organização do trabalho, a que cor-
respondem diferentes “escolas” – desde a Taylorista–Fordista,
clássica, passando pela escola das relações humanas, até às
modernas teorias da administração. Desde a década de 60,
tem vingado o paradigma da administração japonesa, com
frequência designado por “Toyotismo” (nome cuja origem fa-
cilmente se vislumbra) e que "pressupõe a polivalência dos
trabalhadores, a fabricação de produtos diferenciados, a res-
ponsabilidade com o mercado e uma estrutura organizacional
que comporte mudanças e inovações constantes, bem como
a mudança da relação social no trabalho e a participação dos
trabalhadores no sistema produtivo". Deste modo e ainda no
plano global, não obstante os muitos benefícios sociais, o de-
senvolvimento tecnológico não trouxe o “descanso e paz so-
cial” que se esperava do progresso.
Por sua vez, a concepção do homem moderno como sujeito
social, crítico, racional, actuante e autónomo se difunde às
instituições o que conduz às reformulações educacionais
cujo racionalismo pedagógico resulta em transformações nos
modelos culturais, fragmentando o indivíduo com o intuito
de produzir mais para gerar mais capital e deste modo é o
trabalhador e não mais as condições de trabalho que passa
a objecto de controlo sem a necessidade do “chicote” – como
acontecia na manufactura, criando-se a ilusão de ser livre num
sistema de retribuição aparentemente justo. A grande contra-
dição é que a maximização do lucro torna-se mais importante
que as repercussões do progresso para a humanidade.
No entanto, apesar de algumas condições de flexibilidade que
não existem nos modelos clássicos de organização do traba-
lho e dos processos de produção, que proporcionam ao tra-
balhador melhorias da qualidade de vida no trabalho, como
a integração e globalização dos processos e instrumentos de
trabalho, maior autonomia no uso de competências técnicas e
de criatividade, relações hierárquicas baseadas na confiança,
participação do colectivo na definição das regras das empre-
sas, o que faz com que através do novo paradigma os trabalha-
dores se sintam integrantes de todo o processo, o que aumen-
ta a auto-estima com valorização das tarefas, contribuindo
para a melhoria da qualidade de vida, etc, - dizia, apesar destes
aspectos, a realidade organizacional introduz e se reveste de
uma série de facetas que condicionam e podem ser deletérios
para a saúde dos trabalhadores, tais como:
× elevados níveis de competitividade dos RH no interior das
empresas e entre empresas;
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