Magazine Risco Zero Nº12

/23 Há milhares de anos que o consumo de bebidas alcoólicas faz parte de muitas culturas e é considerado um dos mais graves problemas de saúde pública no mundo, tendo impacto na in- cidência de doenças, bem como de outras condições de saúde influenciando o desenvolvimento de alterações do comporta- mento, com os consequentes resultados no indivíduo, família e comunidade. Os danos relacionados com o consumo de ál- cool são determinados por três dimensões: o acto de beber, o volume de álcool ingerido, o padrão de consumo e a qualida- de do álcool ingerido(1,3). O álcool é uma droga psicoactiva que actua como um de- pressor do sistema nervoso central. É de rápida absorção e alcança níveis plasmáticos em pouco tempo. O álcool, por ser uma droga lícita, possibilita o uso abusivo e até o vício, a um conjunto maior de pessoas, com consequências, muitas vezes irreparáveis, implicando graves prejuízos nomeadamente físi- cos/individuais, familiares, laborais e sociais(4). A sintomatologia mais comum no alcoolismo envolve o com- prometimento do sistema nervoso, digestivo e circulatório. Quanto ao sistema nervoso, o indivíduo apresenta tremores, alterações no padrão do sono e transtornos psico-reactivos, perdendo o domínio das suas emoções, desenvolvendo, por vezes, ideias delirantes de perseguição, ciúme e desconfiança. No sistema digestivo, manifesta-se por anorexia, gastrite e cir- rose hepática, que pode desencadear-se pelo facto de 90% do álcool ingerido ser metabolizado no fígado, podendo facilitar o aparecimento de varizes esofágicas, de cancro esofágico e gástrico. No sistema cardiovascular pode surgir a degenera- ção adiposa, que pode ser tratada com a abstinência(4). Para além destes sintomas, relacionados essencialmente com o domínio físico, os resultados decorrentes do uso indiscri- minado do álcool, podem proporcionar desde intoxicações agudas até à dependência alcoólica(4). Assim, o consumo de álcool tem efeitos tóxicos em órgãos e tecidos; compromete a coordenação física, a consciência, a cognição, a percepção, o afecto ou comportamento, comprometendo o curso da vida do indivíduo(1,4). Além dos problemas já mencionados anteriormente, o uso abusivo de álcool também pode implicar outras consequên- cias, que não se limitam ao indivíduo, mas também aos que o envolvem, tais como a adopção de comportamentos sexuais de risco e consequente aquisição de doenças sexualmente transmissíveis; gravidez indesejada; uso de drogas ilícitas; acidentes domésticos; violência; acidentes de viação; proble- mas psicossociais; e dificuldade de socialização, estando rela- cionado, ainda, com o aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares, transtornos psiquiátricos, cancro, acidentes fatais ou suicídios e levando a uma diminuição, em cerca de 15 anos, na expectativa de vida(1,2,5). Especificamente no que respeita às consequências laborais, o consumo de bebidas al- coólicas implica uma maior taxa de absentismo, atrasos fre- quentes, menor produtividade com consequente sobrecarga de trabalho para os colegas, comportamentos de risco para a segurança, conflitos frequentes, comportamentos violentos e furtos, podendo, ainda, conduzir a um aumento dos acidentes de trabalho em cerca de 40%(6). O uso de álcool pelos jovens também é alvo de preocupação. Estes estão numa fase de desenvolvimento humano caracte- rizado por mudanças biológicas, cognitivas, emocionais e so- ciais, procurando novas sensações, novas formas de desafio, procura pelo perigo, aventura e desinibição, o que geralmente origina a experiência de substâncias psicoactivas como o ál- cool e que pode ser um factor de risco para o consumo de outras drogas ilícitas. O consumo de álcool, nesta fase, é ain- da um factor de exposição para problemas de saúde na idade adulta, além de aumentar a probabilidade do indivíduo se tor- nar dependente ao longo da vida(7,8). Estudos apontam que em grupos socioeconómicos mais ele- vados existem mais pessoas a consumir bebidas alcoólicas, devido ao maior número de ocasiões de consumir álcool, no entanto há padrões de consumo de baixo risco. Por outro lado, nos grupos mais pobres são mais comuns os abstémios, embora as pessoas de grupos socioeconómicos mais baixos pareçam ser mais vulneráveis a problemas relacionados com o consumo de álcool, sendo uma explicação para esta vulne- rabilidade o facto de serem menos capazes de evitar conse- quências adversas do seu comportamento devido à falta de recursos(1). Outra explicação apontada é que as pessoas mais pobres bebem com menor frequência, mas quando bebem, bebem em grande quantidade em comparação com as pes- soas com níveis socioeconómicos mais elevados(1). O custo social da dependência alcoólica da população, envol- ve internamentos hospitalares, atendimento na rede básica de saúde, podendo abranger outros dispositivos, como o siste- ma judicial, e originar graves consequências onde se incluem desemprego, perda do papel de gestor familiar, diminuição da auto-estima, diminuição no rendimento profissional, entre outros(2). De acordo com dados estatísticos da OMS o consumo de álcool tem vindo a diminuir na população angolana, con- tinuando a ser, no entanto, um foco de atenção. Em 2010, a população angolana com idade superior a 15 anos, de ambos os sexos, consumiu, em média cerca de 20,9 litros de álcool per capita, existindo uma maior percentagem de consumo

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